O Combate à Apropriação Cultural em Pecadores


Pecadores (2025)


Robert Johnson era um jovem negro, nascido no Mississippi, nos anos 1910, no sul dos Estados Unidos profundamente marcado pela segregação racial. Filho de lavradores, cresceu entre dificuldades e começou a tocar guitarra ainda muito novo. Por volta dos 20 anos, sumiu por um tempo e, quando reapareceu, algo havia mudado: seu jeito de tocar era diferente. Assombroso e inacreditável.


Foi aí que nasceu a lenda. Dizem que, em uma noite qualquer, Robert Johnson teria ido até uma encruzilhada feito um pacto malígno e recebido em troca a habilidade de tocar como ninguém jamais tocou.

Não podemos confirmar nem negar essa história, mas o fato é que ela ganhou força e, até hoje, atravessa o imaginário popular. Aqui que mora um questionamento: 

 

 Por que um talento extraordinário precisaria de uma explicação sobrenatural? 

Por que não poderia ser apenas um dom?

Talvez essa lenda diga mais sobre o racismo da época do que sobre o próprio Johnson. Quem sabe ela tenha sido criada porque a sociedade branca não conseguia aceitar que um jovem negro, sem recursos, sem acesso formal à educação musical, pudesse ser um gênio. O pacto, então, virou desculpa. Uma forma de mascarar o incômodo.


Johnson morreu cedo, aos 27 anos, e sua partida precoce, sem motivos, só alimentou a maior lenda urbana da história do Jazz. Mas por trás da aura mística está uma história sobre apagamento, sobre a dificuldade de reconhecer a arte negra como legítima, e sobre como a cultura negra, tantas vezes, precisa se justificar para existir.

A lenda que o cinema e a TV adoram recontar

A história de Robert Johnson, apesar de não ser tão conhecida no Brasil, já foi adaptada e referenciada diversas vezes na cultura pop. A lenda aparece, por exemplo, na segunda temporada de Sobrenatural, na vigésima temporada Family Guy e em Timeless: Guardiões da História.

Já no cinema, a história apareceu em A Encruzilhada. No longa, Eugene, interpretado por Ralph Macchio, (o eterno Daniel San) é um jovem branco fascinado pelo blues que parte em busca de uma música perdida de Johnson, e, no caminho, aprende os "segredos" do estilo com um antigo parceiro do músico.

No longa, é ele quem encara o duelo final e vence. E aqui começa a questão: como as narrativas transformam dor, cultura e legado em um palco para que outros brilhem.


A ressignificação da lenda

Décadas depois, neste ano, a lenda ganhou uma nova forma e um novo olhar. Nasce Pecadores, dirigido por Ryan Coogler, um cineasta negro que decide se inspirar na história de Robert Johnson, mas dessa vez a partir de outra perspectiva: a de quem sempre foi silenciado.

O centro da trama está no irmão dos protagonistas vividos por Michael B. Jordan. Sammie, interpretado por Milles Caton, é um jovem músico negro com um talento inexplicável para a guitarra. Mas o que poderia ser celebrado como dom, aqui se torna maldição. 

Sammie começa a ser perseguido por forças obscuras — vampiros que não querem apenas “sugar” sua música, mas sua alma, sua ancestralidade, sua cultura. Ele não fez pacto nenhum. O “pecado” dele é existir com talento em um mundo que insiste em sugar tudo o que ele representa.

A metáfora é poderosa. Esses monstros não são apenas vilões sobrenaturais, são símbolos. Representam a indústria, o apagamento histórico, a sociedade que consome a criatividade negra enquanto questiona sua legitimidade.

Diferente de A Encruzilhada, Pecadores não transforma a lenda em espetáculo, nem coloca o branco como herói, pelo contrário: ressignifica o mito como denúncia.

Mais do que uma fantasia, o filme se transforma em crítica. Porque o “mal” não é um pacto feito por um jovem negro em busca de sucesso. O verdadeiro mal está em quem tenta se apropriar do que nunca foi seu e lucra com isso.

Pecadores marca um ponto de virada na forma como histórias baseadas em mitos negros são contadas e consumidas.

A síndrome do salvador branco: quando a dor do outro serve de crescimento para quem não sofre

A forma como A Encruzilhada apresenta a lenda de Johnson se encaixa perfeitamente em uma estrutura narrativa ainda muito presente em Hollywood: a chamada síndrome do salvador branco. Esse formato coloca personagens brancos como heróis mesmo em histórias centradas em pessoas marginalizadas.


No vencedor de melhor filme do Oscar de 2019, Green Book, o arco de transformação não pertence ao pianista negro Don Shirley, mas sim a Tony Lip, seu motorista branco. Mesmo sendo Don o verdadeiro gênio, ele é tratado quase como um coadjuvante da própria história.

O público é guiado a se identificar com Tony, o branco que “aprende a não ser racista”. Com isso, o foco deixa de ser o racismo, e passa a ser o crescimento emocional de quem nunca sofreu com ele.

Esse desvio de olhar não acontece só com a comunidade negra. Um exemplo disso é O Menino do Pijama Listrado. Mesmo ambientado em um campo de concentração nazista, o momento mais trágico e comovente é a morte de Bruno, o menino alemão.

Não que sua morte não importe mas o fato de que milhares de judeus morriam ali todos os dias e, ainda assim, o clímax emocional seja centrado na dor da família do opressor, diz muito sobre quem continua detendo o controle narrativo.

O talento não pode ser apagado

A lenda de Robert Johnson revela mais do que um mito. Revela uma sociedade que prefere acreditar em pactos do que admitir que a genialidade negra existe, e sempre existiu, por mérito próprio. Que escolhe alimentar fantasmas em vez de encarar o reflexo racista no espelho.

Mas Pecadores rompe esse ciclo. Não quer traduzir a dor, quer escancarar. O filme exige reparação, memória e presença, até porque, já passou da hora de parar de duvidar do talento e começar a ouvir quem tem muito a dizer, sem precisar vender a alma pra isso.

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